sábado, 22 de junho de 2013

Apenas para nunca mais esquecer


Texto de um amigo, Fernando Petri.




terça-feira, 21 de maio de 2013

Chame como quiser.


Vocês são detestáveis, por que leem até agora? Por que não viram os olhos ou deixa-me em paz em meus pensamentos? Hã? Por que não leem seus livros mortais, suas páginas amarelas cravadas nas mãos? Por que não param de olhar no profundo de minhas feridas e não saem? Não tem o que ler? Não tem para onde fugir? Pois então guardem-se, protejam-se com seus guarda-chuvas de pudor, das fúrias das palavras que vomitarei, que cuspirei como brados, como fogo, pois quem invade minha mente em chamas, sai chamuscado ou morto. Se sai.
Na vida tive apenas dois grados, a cachaça e a morte, com a cachaça tive filhas, sorri um bocado com os poucos dentes que me restavam, com a cachaça joguei conversa fora e sentei na sarjeta para escrever na terra com os dedos ossudos de velho, com a cachaça tornei-me vermelho sem precisar nascer índio, com a cachaça torturei meus dias maus e fiz meus sol nascer hexagonal, com a cachaça sonhei e fui feliz... Já com a morte jogava damas. Se foram essas minhas únicas boas coisas o resto foi apenas desgosto e o maior destes são meus pensamentos, onde vocês estão enclausurados agora. Em minha mente havia fogo, poderia dizer que dentro de minha cabeça ficava o inferno, o lago de enxofre, o hades e o tártaro, que no trono de minha consciência sentava-se “O próprio” e comandava meus desejos e medos mais internos para que me assombrassem nas noites frias que passei em minha cabana no deserto. Para não sentir o fogo de minha cabeça, queimava-me então o restante, bebia a cachaça e tudo passava.
Pelas manhãs trotava em cima de um jumento até as cidades próximas, onde aliviava minhas necessidades físicas nos milharais dos bons senhores que me recebiam com chumbo, comprava mais garrafas de cachaça nos bares, para o restante da viajem e para onde era essa viajem? Nem eu, nem Deus e nem mais “O próprio” sabia... Meu destino ficava um tanto entre onde Judas perdeu as botas e onde ele não perdeu. Botava o chapéu sobre os cabelos poucos que restavam para cobrir o fogareiro que chamava de crânio e enfrentava o sol quente para buscar o recanto para a minha ossada, lugar bom e qualquer de cair morto, pois não morria desde que decidira entrar nessa peregrinação, meu sono era pesado, mas a morte se recusava a me deixar dormir pois tinha preguiça de ir a onde eu estava, ou tinha medo de enfrentar o tinhoso que morava em minha cabeça, não só ele, mas todas as almas dos pobres coitados que ela levava para que o tal do “O próprio” cuidasse.
Mas foi chegando perto da virada da meia noite, de esquina com a quinta feira que eu resolvi bater as botas por mim mesmo, roçei couro velho com couro velho e bati duas ou três vezes as botas esfarrapadas que eu calçava, para a minha infelicidade deu certo e eu dei urros de alegria, sorridente, me esquecendo apenas de que morto não bebe cachaça, por isso hoje vos digo isso, a minha mente é um inferno, um inferno vivo dentro de um morto, meus pensamentos escrevem aos que querem ouvir, e sai chamuscado quem não consegue ficar. Se outrora quiser ouvir de minhas histórias, das quais muitas tenho, escreva-me, se não quiser, siga em frente, porém saiba, que quando a morte vier a te pegar e te levar pro inferno, que é o lugar que todos que não são padres nem santos vão, você estará de volta aqui, querendo ou não, enclausurado no inferno dos meus pensamentos e dessa vez, sem saída para todo o sempre.

tempestades atemporais.


Se na herança dos dias internos houver um momento belo que se salve, a eterna pergunta que se lança terá enfim sua resposta...

Mas afinal, vai chover ontem?

Não tenho saudades de casa.


-Eu já estive aqui alguma vez? - Ela disse e depois disso nunca mais quis voltar para casa. Para a sua casa.


E por fim os médicos desistiram de reanimá-la

Alguma coisa acontece no meu coração.

Quando ele esteve lá, naquele carro, naqueles trilhos, queria apenas sentir o frio na barriga e o calafrio na espinha, queria apenas sentir-se de ponta cabeça, andar de costas, o vento, o tempo... Quando ele esteve lá, saltando daquela altura, sem saber o que lhe esperava abaixo, sem ver o que lhe esperava abaixo, além das nuvens, além de seus pés que não tocavam nada, se não ar. Quando ele esteve lá, a pedindo em noivado, sem se preocupar com as palavras que poderiam ser ditas, sem se importar com a porcentagem, a sorte ou o azar, nem quando esteve lá, naquele altar. Quando ele esteve lá, montado naquela motocicleta, atravessando fronteiras e pilotando sem rumo, buscando apenas um lugar manso para o seu coração, quando esteve lá, naquela beira de estrada, onde o sol tocava a terra seca e desértica, foi quando esteve lá, na beira da chuva, na entrada do bar, foi quando esteve lá, no início dos fogos, na saída do hospital, foi quando esteve lá, fora da angústia, quando se entregou a tudo, menos ao que o consumia, quando esqueceu do resto, das dores, do choro, da lástima, da novela, foi quando saiu de lá, daquele pequeno instante que o aturdia... Foi quando ele esteve lá, na vida, vivendo, sentindo, lutando, que foi quando ele esteve... Pois quando se está em algum lugar, se é alguma coisa.

Embora foi, deixou pra trás... Vende-se um par de asas usados.


Lembro-me de quando ele tinha apenas cinco anos, ele mesmo se ninava, cantarolava baixinho, com a voz fraca e rouca as óperas que provavelmente naquele mesmo instante a mãe cantava no palco, ele ainda tinha medo de dormir sozinho, dormia na cama dos pais, onde apenas o pai jazia, já longe dali, em mundos onde as coisas pareciam ser mais fáceis e as respostas para o filho mais simples.
-Por que ela foi embora? - Ele perguntou certa vez.
-Por que passarinhos não podem cantar em gaiolas e ainda serem felizes...

quinta-feira, 28 de março de 2013

Infância


Adoro beber chá; detesto estudar funções; gasto histeria idiota jogando; legal mesmo: nunca olhar para Quitéria; resta somente tentar usurpar vocês.
Xico Zélio.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Nós vamo invadir sua praia! - Primeira parte



-Como assim não posso levar meu filho mais cedo?
Aquele dia estava sendo um inferno no jardim de infância, Becky parecia ter acabado de limpar um pavilhão de exposição de carros monstro após uma explosão simultânea de óleo, e que após isso estivera na linha de frente em uma terceira guerra mundial... Ela costumava ser meiga, porém aquele dia seria difícil convencê-la de liberar qualquer um; enquanto conversava com um dos pais as crianças gritavam na porta atrás dela, os óculos estavam tortos e embaçados e uma mecha do cabelo pendia sobre o rosto, se movendo de acordo com sua respiração enfurecida, pelo vidro da porta era possível ver crianças flutuando, um deles estava sobre a mesa apontando uma pistola de desintegração para os colegas de turma enquanto vasculhava a bolsa de couro falso da professora – Achei! – Ele gritou com a chupeta no canto da boca abafando o grito, ergueu o que procurava e as crianças caíram ao chão uma a uma.
-Eu já disse, não posso liberá-lo agora! Pelo menos não AGORA! – Houveram mais alguns gritos quando o raio laser voltou a ser apontado para a criançada – Estou com um pequeno probleminha lá dentro e... Eu não posso parar tudo agora... E-eu, preciso realmente voltar lá, sinto muito – Ela abriu a porta, o garotinho escondeu a arma dentro da bolsa, chorou como se fosse a vítima, ela parecia não saber por onde começar, pegou os potes de tinta do chão, tentou limpar o excesso da bagunça, ouviu mais berros, mais choro, todos chamavam “professora” ao mesmo tempo, ouviu o rugido do motor, socos, tapas, mais berros, a borracha dos pneus queimando no asfalto, pontapés, as tintas voltaram ao chão, mais choro, e os vidros se estilhaçaram sobre o para choque daquele mustang 68 vermelho e branco.
-Entra aí! – O carro pousou sobre um grupo de mesinhas coloridas, o para brisas estava enfeitado com um varal de desenhos à guache, as crianças ficaram espremidas num canto, atônitas, Becky estava sobre elas, as protegendo, o suposto pai saltou do carro e puxou a criança agarrada a bolsa de couro falso e a lançou pela janela para o banco do passageiro.
-Você não pode fazer isso! Quem é você? Isso é sequestro! – Becky berrou, o pequenino abaixou o vidro da janela do passageiro e fez o gesto obsceno com o dedo para a professora. Os pneus cantaram novamente e a marcha ré foi ativada, o carro rolou as cadeiras e mesinhas para o jardim do colégio numa manobra rápida e se lançou contra os arbustos que separavam o jardim da rua, Becky correu à secretária, sacou o telefone vermelho e discou para a delegacia. – Foi um sequestro! Ele invadiu o jardim de infância e levou uma criança em seu mustang! – Ela gritou sem respirar entre as palavras. A policial pediu para que ela se acalmasse, que dissesse onde estava e que tudo ficaria bem.

terça-feira, 26 de março de 2013

Chamas que ardem, chamas que apagam...


Suas mãos se agitavam, na cadeira, tremiam, velhas, ossudas e pintadas de sardas escuras... Balbuciava, olhava o nada, meio cego, ou talvez com os olhos já não mais materiais, não levantou-se, não uniu-se ao grupo de idosos que recepcionavam as crianças, nem sequer olhou para trás, desligou-se, sentado de frente para uma janela imensa que dava ao jardim, lugar que não frequentava havia semanas, a colcha de retalhos sobre as pernas tremia, suava, chorava, babava? O que quer que fosse estava úmido e pálido; dormindo? Não... Estava atento, não se sabe a o que, mas estava...
            Elas poderiam ter escolhido qualquer um ali, a senhora de cabelos alaranjados, que distribuía balas, o velho ranzinza cujo desafio entre as crianças era fazê-lo rir, um ex-militante com dezenas de histórias para contar... Tantos ali tão interessantes, tão mais atraentes aos olhos astutos de criança, mas não...
-Aqui está seu remédio – A enfermeira se apoiou na cadeira de rodas do velho, ele não tirou os olhos da janela, virou o copinho plástico, engoliu seco e forçado, depois voltou a balbuciar, os paços pesados do menino seguido por seu colega ruivo e avoado, ecoaram em seus ouvidos que já ouviam de forma distorcida, as imagens piscaram em suas retinas, os paços das crianças tornaram-se o trotar dos cavalos arrancando a relva do pequeno bosque, o velho chalé na montanha e os cavalos selvagens, búfalos e alces que o circulavam, a aurora invadindo seu lar pela janela, sua amada preparava-lhe o chá de ervas.
-Podemos fazer algumas perguntas para vo... O senhor – Corrigiu-se o menino pela grosseria, o senhor tinha um sorriso de canto de lábio, vendo sua esposa servir-lhe uma xícara do chá, sentia o sabor, o aroma, ainda esquentava-lhe os dedos e o interior... A fumaça aconchegara-lhe o rosto porém dissipou-se e levou consigo as lembranças, o velho inclinou a cabeça e os olhos enxergaram os meninos embaçados.
-O que querem? Não vêem que estou fora do grupo que pretendem entrevistar?
-Mas o senhor está na mesma sala que os outros...
-Mas não no mesmo ambiente, entenda... Ali há pessoas mais interessantes...
-Mas me parece que o senhor é tão interessante quanto...
-Você não sabe o que diz garoto, não tenho nada a contar... Você não sabe, você não sabe se tenho e...
-Seus olhos dizem que tem...
-Eu... – O velho foi pego de surpresa, tornou a olhar para o crepúsculo avisando o início da noite, ele lembrou-se da cena, o bafo quente tomou seu corpo, a fuligem, o cheiro de fumaça, o chalé tomado por chamas... Sua armadura estava chamuscada pelo último sopro de um dragão com o qual lutara desde jovem, quando finalmente cravara-lhe a espada em seu peito escamoso, o dragão matara sua princesa amada... – Eu não tenho nada a dizer...
-Você foi um herói não foi?
-Não! Eu não fui! – Lacrimejou.
-Minha mãe me disse que o senhor era um grande herói... Minha mãe me disse que salvou muitos, que era um guerreiro...
-Não... – O velho empurrou a porta de vidro a sua frente, foi ao jardim, o vento estava forte e gélido, a tosse invadiu seus pulmões, fora advertido a não sair, mas desobedecera, queria respirar um ar puro... O menino seguiu-o sem muito pensar, o ruivo não notou, não estava interessado, permaneceu na sala... Para ele era só um velho ranzinza e com cheiro de remédios, mas o menino não se importava com seu cheiro forte, nem com sua forma de fugir de tudo o que ele dizia, ele sabia que ele fora um dia, ele o admirava e queria ser como ele... – Eu não pude salvá-la... – O velho disse antes que o menino se colocasse a sua frente.
-Você fez o que pode... Minha mãe disse que não desistiu, que tentou tirá-la de lá... Ela disse que você salvou muita gente...
-Não...
-Você tem medalhas, eu já as vi, já te vi no jornal também... Eu quero ser como você quando crescer... Mamãe me deu uma farda no natal passado! Sabia?
-Para! Eu não sou exemplo para ninguém! Eu a deixei morrer!
-A vovó tem orgulho de você vovô... Onde quer que ela esteja... – O menino abraçou-o e voltou para a sala de estar do asilo para idosos... O velho inclinou-se e chorou... Lembrou-se exatamente da cena, salvara tantos aquela noite, mas não conseguira salvar sua amada das chamas, o caminhão chegou tarde demais, moravam num chalé num local de difícil acesso, ela adorava aquele lugar... Os olhos não quiseram mais ver, quiseram apagar aquilo tudo, ele não pode salvar quem mais amava... Abandonou a farda, se isolou, estava morrendo, por dentro, por fora... A chama matará sua esposa, e a falta dela matou o esposo... A chama apagou-se naquela mesma noite, no dia seguinte, entre lágrimas de orgulho e tristeza o menino foi aplaudido por seu trabalho em homenagem aos bombeiros, em especial ao seu avô, seu maior super herói...

-Mamãe?


-Mamãe? – Rompi o véu que me envolvia, que me envolvera durante tanto tempo, que me guardara, que me polira e transformara... Reneguei aquele meu pequeno mundinho, solitário, guardado por mamãe, cuidado e acariciado... Fugi por um instante do aconchego, do escuro, do barulho do vazio e das risadas longínquas de mamãe, da voz de papai, das músicas que embalavam-me... Dos sons do meu coração, dos sons do coração dela... Rompi com minha pequena visão, busquei a luz no final do túnel... Rompi o véu que me guardava, o véu que me educava. – Mamãe? – Eu gritei quando saí... Mas não havia mais ninguém, não havia nada além de luz, não havia nada além de imensos olhos, não havia nada além de sons, não mais corações, mas titaques, mas barulhos de maquinários; não estava mais quente, agora era tudo frio... Havia dezenas de olhares, todos sorriam, falavam coisas que eu não conseguia entender, me passavam de lugar para lugar, me molharam, me envolveram num novo véu – Mamãe? – Eu tentava chamar, mas ninguém me ouvia... – Mamãe? – Eu buscava com o olhar, eu ansiava voltar para onde eu estivera, anelado, cuidado, exortado... – Mamãe? – Fui passado por todos... Até estar ali, ao lado do toque de seu coração, anelado por seus braços, ao ouvir a voz de papai, ao sentir o calor de mamãe... Mas agora, já era hora de partir... Rompi o véu que me envolvia, durante tanto tempo, que me guardara, que me polira, que me transformara e educara... – Mamãe? – Eu disse, mas não mais a achei, agora tinha eu que ser mamãe, tinha eu meu próprio véu... A família.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Frustração - Momento Poético

Ao abrir uma embalagem
de algum delicioso alimento
sei que o último pedaço
tem que ser o melhor momento.
Delicio-me a cada mordida
a expectativa crescendo em mim
gostoso, cremoso recheio
é você que deixei para o fim.
Ritual de encerramento
chegou a hora da felicidade,
mas então percebo que o alimento
não é como dizem na embalagem.
Preparação desnecessária,
a verdade vem à tona
meu paladar detectou
que esse recheio é de acetona.
Mas que brochada decepcionante
saber que tudo pioraria
pois o sabor do último pedaço
é o que fica o resto do dia.


Por Karina Ribeiro

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sou Dante...


Minhas asas estão velhas, entorpecidas... Ainda eu as tenho, mas já não posso mais voar; como se estivesse preso em minha própria gravidade, em minha própria solidão sólida... Estou preso nessa estrela já não sei há quanto tempo, parei de contar depois do terceiro milênio, Meus cabelos antes negros e tão longos quanto à vastidão do universo já caem, tornam-se alvos, meus olhos antes astutos como os de uma águia estão cegando-se pouco a pouco, meus lábios antes prontos a tudo dizer, agora estão secos, estão sedentos, já não agüento ouvir mais minha voz respondida por meus ecos, quero uma voz doce e suave na ponta do ouvido, quero uma voz grave e penetrante apitando em meu cérebro, mas de tanto pouco usar minha audição é como se eu a tivesse perdido, minha pele, antes pálida, agora é queimada, é frágil, de tanto tempo sentado sobre a luz forte desta estrela, minhas mãos antes prontas para atacar com espadas afiadas, hoje fraquejam, tremem... Aquele pequeno beija-flor antes em meus ombros, hoje já não canta, hoje já não voa... Hoje já não vive mais... Já eu... Sou permanente, sou duradouro... Eu sou Dante, mas nem se quer queria ser...
Deito-me encolhido, apertando-me, dormindo abraçado a mim mesmo, protegendo-me do frio que me anseia, mesmo sobre o calor da estrela que me carrega, sou para ela como um piolho em cabeça humana, sou para ela apenas uma chaga que impede sua luz de brilhar por completo, sou como um cisco em seu olho, uma poeira em sua celha. Minha fome eu já não sinto mais, minha sede é saciada por minhas lágrimas, mas e meu amor? Dizem que anjos não sentem, e realmente não deveriam, pois sentir é apenas um atraso, sentir é ora sentir amor, alegria, mas em todo o resto do tempo sentir ódio e tristeza, mas eu não dei ouvidos ao que me disseram, eu invejei os humanos, quis ser como um deles, quis sentir e ser sentido, não apenas mais um ser sem sentido, sem sentidos, sem sorrisos... Quis ser amado, por mais que eu já fosse... Mas eu nunca havia percebido, nunca havia notado que era mais querido em meu emprego por mim julgado medíocre e tedioso, pois agora sei o que é sentir tédio, sei o que é ser medíocre, pequeno, castigado, ser uma chaga sem cura e ao mesmo tempo tê-la dentro de você... Saber que sou eu meu próprio medo, meu próprio receio, meu próprio companheiro e minha própria ausência...
Certa vez ouvi uma conversa com um deles, um dos humanos, foi pedido que saísse de sua tenda, que olhasse o céu, que contasse as estrelas, mas era impossível saber ao certo quantas haviam, eram muitas, tão distantes que não se pode ver todas em uma só vista, eram pequenas luzes, pequenos furos na lona que chamam de céus, assim eles pensam... Mas é ainda maior, ainda mais longínquo, cada uma em sua infinita solidão, iluminando a si mesma, e o que quer que seja iluminado... São apenas lamparinas solitárias, belas... Porém também ouvi certa vez, que da tristeza se tira a poesia mais bela, sendo assim, estrelas são tristes, e eu agora, sou parte de uma...
Minha luz ainda deve brilhar, mas sou tão pequeno nessa estrela, que ela se perde em todo o brilho que me rodeia, minha força estava em algo que um dia eu desdenhei, a família... Meu poder, talvez nunca tenha existido, mas não deveria importar, o amor é o maior poder que se pode conseguir, minhas posses, são minhas pernas para correr, meus olhos para ver, minhas mãos para sentir, mas nada disso possuo mais, nada disso posso ter, por mais que estejam aqui, grudados, são apenas partes e não mais partes de mim, eu deveria ser Dante, o permanente, o duradouro, mas agora sou estrela... Eu deveria ser eterno, mas minha vida já não brilha mais... Eu deveria ser anjo, mas anjos não sentem, anjos não choram, anjos não morrem... Eu deveria ter casa, mas agora minha casa é aqui, em mim mesmo, em meu castigo, em minha morte, em minha estrela...
Eu deveria ser livre como um beija flor, mas hoje já não canto, já não vôo, hoje já não vivo mais... Deixei de ser Dante, de ser eterno, duradouro, permanente...

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