quarta-feira, 4 de março de 2015

Quarta Feira

Nasceu no dia quatro de abril de dois mil e quatro, era um domingo, mas se chamava Quarta-Feira, resolveu vir ao mundo na quarta parte do dia, que na verdade é a primeira, quatro da matina, no meio de uma feira.
Seu pai era filho do peixeiro, dezessete anos, de um cavanhaque fino, juvenil; que supria um amor pela filha do vendedor de temperos, uma menina sardenta, de dezesseis, pura e doce, mesmo em meio uma família apimentada.
O peixeiro vendia do outro lado da cidade na feira de segunda feira, e o moço dos temperos ia para um bairro festeiro vender nas feiras de domingo, mas a única feira que se viam, cara a cara, filha do Seu Zé Pimenta, filho da Dona Sardinha, era a feira de quarta feira, e daí proveio o nome, da menina que ninava ao som de ofertas de fruta, e roubava bananas da barraca do Tião das Pratas, Ouros, Nanicas, e Da Terra.
Cresceu bela como a mãe, e forte como o pai, usava roupa de esporte, mesmo não fazendo nada se não manusear a peixeira, e encher saquinhos com pó colorido e de cheiro forte. Quarta-Feira era pequena, mas já sabia bem as manhas e artimanhas da feira.
-Óia seu moço! Pra um saboroso almoço, leve um pouco de tainha, mais pimenta e sal a gosto! E pra senhora, que não pode com a demora, alfavaca pra sacola e uma anchova, por favor! E adivinhem, nosso preço é uma pechincha, tem até peixin que incha, pra fazer vosso sushi, e pra quem leva um tempero e um pescado, não irá sem um regalo, vem de brinde o meu beijin.
-E esse beijin eu levo donde? - O menino da barraca da esquina se achegou no balcão, ele mal ligava para o cheiro forte do pescado, misturado com o tempero esparramado, só pensava em olhar no fundo do olho da menina bonita, quarta-feira.
-Não leva em lugar nenhum - O pai interveio, tirou a menina de cima do banquinho, e apontou a peixeira pro menino - Moleque atrevido, volta a vender seu pastel barato, e enche a cara de caldo de cana, mas daqui dessa barraca não vai tirar lasca de nada, nem de tubarão com pimenta, nem de sardinha com salsa, e muito menos da menina Quarta-Feira!
-Pai! - Relutou, envergonhada, e lançou um olhar dócil para o menino, que entendeu o recado e voltou sem reclamar para a barraca da família
-Não te quero proseando com menino nenhum dessa feira, nem de nenhuma outra, Quarta-Feira! Isso ficou claro?
-Nem de pastel eu gosto, já lhe falei - Ela bufou e continuou a cantarolar - Meu senhor volte aqui, que eu posso lhe ajudar, prove um pouco do pescado pra encantar seu paladar!
O pai a olhou por cima do ombro, desconfiado, Quarta-Feira era menina forte, jamais aceitaria tão facilmente uma afronta, mesmo que não suprisse interesse algum no pivete. Juliano era afiado feito peixeira, mas mole feito alforreca. Deixou passar. A mãe, doce feito stevia, e aguda feito sal, viu de cara onde aquela história ia parar, deu um sorriso disfarçado, alisou o cabelo coloral, como se na carícia entregasse a mente da filha uma prece para que não fizesse o mesmo que a mãe fez, Quarta-Feira.

sábado, 22 de junho de 2013

Apenas para nunca mais esquecer


Texto de um amigo, Fernando Petri.




terça-feira, 21 de maio de 2013

Chame como quiser.


Vocês são detestáveis, por que leem até agora? Por que não viram os olhos ou deixa-me em paz em meus pensamentos? Hã? Por que não leem seus livros mortais, suas páginas amarelas cravadas nas mãos? Por que não param de olhar no profundo de minhas feridas e não saem? Não tem o que ler? Não tem para onde fugir? Pois então guardem-se, protejam-se com seus guarda-chuvas de pudor, das fúrias das palavras que vomitarei, que cuspirei como brados, como fogo, pois quem invade minha mente em chamas, sai chamuscado ou morto. Se sai.
Na vida tive apenas dois grados, a cachaça e a morte, com a cachaça tive filhas, sorri um bocado com os poucos dentes que me restavam, com a cachaça joguei conversa fora e sentei na sarjeta para escrever na terra com os dedos ossudos de velho, com a cachaça tornei-me vermelho sem precisar nascer índio, com a cachaça torturei meus dias maus e fiz meus sol nascer hexagonal, com a cachaça sonhei e fui feliz... Já com a morte jogava damas. Se foram essas minhas únicas boas coisas o resto foi apenas desgosto e o maior destes são meus pensamentos, onde vocês estão enclausurados agora. Em minha mente havia fogo, poderia dizer que dentro de minha cabeça ficava o inferno, o lago de enxofre, o hades e o tártaro, que no trono de minha consciência sentava-se “O próprio” e comandava meus desejos e medos mais internos para que me assombrassem nas noites frias que passei em minha cabana no deserto. Para não sentir o fogo de minha cabeça, queimava-me então o restante, bebia a cachaça e tudo passava.
Pelas manhãs trotava em cima de um jumento até as cidades próximas, onde aliviava minhas necessidades físicas nos milharais dos bons senhores que me recebiam com chumbo, comprava mais garrafas de cachaça nos bares, para o restante da viajem e para onde era essa viajem? Nem eu, nem Deus e nem mais “O próprio” sabia... Meu destino ficava um tanto entre onde Judas perdeu as botas e onde ele não perdeu. Botava o chapéu sobre os cabelos poucos que restavam para cobrir o fogareiro que chamava de crânio e enfrentava o sol quente para buscar o recanto para a minha ossada, lugar bom e qualquer de cair morto, pois não morria desde que decidira entrar nessa peregrinação, meu sono era pesado, mas a morte se recusava a me deixar dormir pois tinha preguiça de ir a onde eu estava, ou tinha medo de enfrentar o tinhoso que morava em minha cabeça, não só ele, mas todas as almas dos pobres coitados que ela levava para que o tal do “O próprio” cuidasse.
Mas foi chegando perto da virada da meia noite, de esquina com a quinta feira que eu resolvi bater as botas por mim mesmo, roçei couro velho com couro velho e bati duas ou três vezes as botas esfarrapadas que eu calçava, para a minha infelicidade deu certo e eu dei urros de alegria, sorridente, me esquecendo apenas de que morto não bebe cachaça, por isso hoje vos digo isso, a minha mente é um inferno, um inferno vivo dentro de um morto, meus pensamentos escrevem aos que querem ouvir, e sai chamuscado quem não consegue ficar. Se outrora quiser ouvir de minhas histórias, das quais muitas tenho, escreva-me, se não quiser, siga em frente, porém saiba, que quando a morte vier a te pegar e te levar pro inferno, que é o lugar que todos que não são padres nem santos vão, você estará de volta aqui, querendo ou não, enclausurado no inferno dos meus pensamentos e dessa vez, sem saída para todo o sempre.

tempestades atemporais.


Se na herança dos dias internos houver um momento belo que se salve, a eterna pergunta que se lança terá enfim sua resposta...

Mas afinal, vai chover ontem?

Não tenho saudades de casa.


-Eu já estive aqui alguma vez? - Ela disse e depois disso nunca mais quis voltar para casa. Para a sua casa.


E por fim os médicos desistiram de reanimá-la

Alguma coisa acontece no meu coração.

Quando ele esteve lá, naquele carro, naqueles trilhos, queria apenas sentir o frio na barriga e o calafrio na espinha, queria apenas sentir-se de ponta cabeça, andar de costas, o vento, o tempo... Quando ele esteve lá, saltando daquela altura, sem saber o que lhe esperava abaixo, sem ver o que lhe esperava abaixo, além das nuvens, além de seus pés que não tocavam nada, se não ar. Quando ele esteve lá, a pedindo em noivado, sem se preocupar com as palavras que poderiam ser ditas, sem se importar com a porcentagem, a sorte ou o azar, nem quando esteve lá, naquele altar. Quando ele esteve lá, montado naquela motocicleta, atravessando fronteiras e pilotando sem rumo, buscando apenas um lugar manso para o seu coração, quando esteve lá, naquela beira de estrada, onde o sol tocava a terra seca e desértica, foi quando esteve lá, na beira da chuva, na entrada do bar, foi quando esteve lá, no início dos fogos, na saída do hospital, foi quando esteve lá, fora da angústia, quando se entregou a tudo, menos ao que o consumia, quando esqueceu do resto, das dores, do choro, da lástima, da novela, foi quando saiu de lá, daquele pequeno instante que o aturdia... Foi quando ele esteve lá, na vida, vivendo, sentindo, lutando, que foi quando ele esteve... Pois quando se está em algum lugar, se é alguma coisa.

Embora foi, deixou pra trás... Vende-se um par de asas usados.


Lembro-me de quando ele tinha apenas cinco anos, ele mesmo se ninava, cantarolava baixinho, com a voz fraca e rouca as óperas que provavelmente naquele mesmo instante a mãe cantava no palco, ele ainda tinha medo de dormir sozinho, dormia na cama dos pais, onde apenas o pai jazia, já longe dali, em mundos onde as coisas pareciam ser mais fáceis e as respostas para o filho mais simples.
-Por que ela foi embora? - Ele perguntou certa vez.
-Por que passarinhos não podem cantar em gaiolas e ainda serem felizes...

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