terça-feira, 21 de maio de 2013

Chame como quiser.


Vocês são detestáveis, por que leem até agora? Por que não viram os olhos ou deixa-me em paz em meus pensamentos? Hã? Por que não leem seus livros mortais, suas páginas amarelas cravadas nas mãos? Por que não param de olhar no profundo de minhas feridas e não saem? Não tem o que ler? Não tem para onde fugir? Pois então guardem-se, protejam-se com seus guarda-chuvas de pudor, das fúrias das palavras que vomitarei, que cuspirei como brados, como fogo, pois quem invade minha mente em chamas, sai chamuscado ou morto. Se sai.
Na vida tive apenas dois grados, a cachaça e a morte, com a cachaça tive filhas, sorri um bocado com os poucos dentes que me restavam, com a cachaça joguei conversa fora e sentei na sarjeta para escrever na terra com os dedos ossudos de velho, com a cachaça tornei-me vermelho sem precisar nascer índio, com a cachaça torturei meus dias maus e fiz meus sol nascer hexagonal, com a cachaça sonhei e fui feliz... Já com a morte jogava damas. Se foram essas minhas únicas boas coisas o resto foi apenas desgosto e o maior destes são meus pensamentos, onde vocês estão enclausurados agora. Em minha mente havia fogo, poderia dizer que dentro de minha cabeça ficava o inferno, o lago de enxofre, o hades e o tártaro, que no trono de minha consciência sentava-se “O próprio” e comandava meus desejos e medos mais internos para que me assombrassem nas noites frias que passei em minha cabana no deserto. Para não sentir o fogo de minha cabeça, queimava-me então o restante, bebia a cachaça e tudo passava.
Pelas manhãs trotava em cima de um jumento até as cidades próximas, onde aliviava minhas necessidades físicas nos milharais dos bons senhores que me recebiam com chumbo, comprava mais garrafas de cachaça nos bares, para o restante da viajem e para onde era essa viajem? Nem eu, nem Deus e nem mais “O próprio” sabia... Meu destino ficava um tanto entre onde Judas perdeu as botas e onde ele não perdeu. Botava o chapéu sobre os cabelos poucos que restavam para cobrir o fogareiro que chamava de crânio e enfrentava o sol quente para buscar o recanto para a minha ossada, lugar bom e qualquer de cair morto, pois não morria desde que decidira entrar nessa peregrinação, meu sono era pesado, mas a morte se recusava a me deixar dormir pois tinha preguiça de ir a onde eu estava, ou tinha medo de enfrentar o tinhoso que morava em minha cabeça, não só ele, mas todas as almas dos pobres coitados que ela levava para que o tal do “O próprio” cuidasse.
Mas foi chegando perto da virada da meia noite, de esquina com a quinta feira que eu resolvi bater as botas por mim mesmo, roçei couro velho com couro velho e bati duas ou três vezes as botas esfarrapadas que eu calçava, para a minha infelicidade deu certo e eu dei urros de alegria, sorridente, me esquecendo apenas de que morto não bebe cachaça, por isso hoje vos digo isso, a minha mente é um inferno, um inferno vivo dentro de um morto, meus pensamentos escrevem aos que querem ouvir, e sai chamuscado quem não consegue ficar. Se outrora quiser ouvir de minhas histórias, das quais muitas tenho, escreva-me, se não quiser, siga em frente, porém saiba, que quando a morte vier a te pegar e te levar pro inferno, que é o lugar que todos que não são padres nem santos vão, você estará de volta aqui, querendo ou não, enclausurado no inferno dos meus pensamentos e dessa vez, sem saída para todo o sempre.

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