domingo, 13 de maio de 2012

A máquina - UM


Na rotina diária, a correria, pessoa vem, veem, vão e esquecem, esbarram e mal sabem as feições de com quem toparam, tomando cuidado para não derrubar os copos de café frescos que tomam no rapidíssimo horário de almoço, não há tempo para limpar, para preparar suas roupas, ou comida, não há tempo para abraçar os filhos ou dar bom dia, mas para isso em meio a tantas pessoas estão as artificiais, de tamanha perfeição que mau se percebe quem é de lata e quem é de carne, mas é só observar os ofícios e perceberá, que o que tem mais tempo, aquele será... A moça da limpeza que te sorri artificialmente e te deseja um ótimo dia, sem obter resposta... O zelador que concerta sorridente todas as coisas que você quebra nos seus ataques de raiva por não ter conseguido fechar as ações... A cozinheira que faz com cuidado e exatidão a comida que você nem aprecia ou diz como estava boa... O motorista que vai e que vem, sem preocupar-se com as horas, estando sempre disposto, sem precisar descansar, ou estar com a família... Que não tem... E inclusive esse jovem rapaz... Que nada faz, além de olhar pelas vitrines, analisar o céu, olhar as pessoas e andar sorrindo; uma máquina que nem os próprios criadores entendem bem; que não quer trabalho... Quer apenas sorrir e olhar... Um fleumático talvez, preguiçoso e vadio... Mas no fundo, talvez um poeta... Um filósofo...
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Steve, cerca de dezoito anos, magro, alto, de cabelos negros, olhos azuis, profundos e fundos... lábios pequenos, um nariz fino e arrebitado, criado para trabalhar em Call center, mas é de poucas palavras... Fazendo inclusive com que pensem que é mais um jovem rebelde, que fugiu de casa e anda pelas ruas drogado, tendo alucinações frequentemente... Anda tão desligado que dificilmente não recebe um xingamento, esbarra em um, pisa nos pés de outro... Nunca ouve outra coisa que não sejam palavrões e palavras de baixo calão, ou pelo menos é fulminado, sem ao menos precisar ouvir... Mas naquela vez... Papéis voaram das mãos da garota pequena e delicada, seus cabelos castanhos voavam enquanto ela tentava capturar os papéis para que não caíssem na água e segurava um engradado de cappuccinos, seu vestido florido era empurrado frequentemente pelo vento e a garota mau sabia o que deveria segurar, as folhas, o café, o vestido ou tirar o cabelo do rosto... mas Steve abaixou-se e recolheu os diversos papéis... Entregando-a, ele demorou para soltar, encantado com tamanha beleza da moça, com um ar técnico de metal, mas uma ternura que só um ser humano poderia ter... notou seus olhos verdes contornados por uma imensidão de cílios grandes e desenhados, os lábios e bochechas rosados, e a cabeça deitada sobre um cachecol cinza bem preso... A garota sem nada dizer apenas riu por ser tão desastrada, agradeceu com a cabeça e pediu desculpa diversas vezes, e segui andando... Enquanto Steve a acompanhou com o olhar, sem entender o que havia acontecido... Onde estavam os xingamentos? Onde estava a cara fechada? Ele gravou aquele sorriso sincero e seguiu andando, nunca mais a esqueceria... Um momento tão banal do dia... Mas que ficou gravado na placa mãe de um homem de lata como sendo um dos melhores momentos banais...

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