terça-feira, 29 de maio de 2012

O Filho Pródigo

Ouça a trilha sonora da crônica

-Pai? Estou chegando... – Ele disse analisando a paisagem pela janela do ônibus e guardou o celular no bolso sem tirar os olhos de lá, apenas recostou a cabeça sobre a janela e viu a nuvem de areia ser levantada enquanto o ônibus se locomovia, o céu estava alaranjado, o sol escaldante, já não havia plantas em lugar algum, toda a sua pequena cidade parecia um deserto... Ele via o resultado da guerra em que participou, e deixou escorrer pelo rosto a lágrima que segurou durante todos os anos que esteve na batalha... O ônibus chegou perto do vilarejo e freou bruscamente, o rapaz desceu com cautela enquanto algumas crianças, cinco ou seis o esperavam na porta, todas sorridentes, nem ao menos o conheciam, mas o tinham como lenda... Ele foi acompanhado pelas crianças saltitantes o puxando pela mão, enquanto adentrava a pequena vila de poucas casas, todos o esperavam ansiosos e choravam pela família, por ter esperado tanto pelo filho pródigo, as crianças riam alegres em finalmente ver o tal homem que seus pais lhe falavam, um exemplo, o único ali que foi para a guerra, as pessoas comentavam e abriam caminho em direção a antiga casa do rapaz, tinham orgulho dele, mas ele mau entendia o que significava todos aqueles olhares, de todos aqueles sorrisos, e continuou analisando-os assustado, tentando entender o que acontecia, o rapaz colocou sua grande mochila nas costas e seguiu pelo caminho feito de pessoas até sua velha casa de madeira, o pai o aguardava sentado sobre sua cadeira de balanço, os anos haviam lhe feito ficar com a vista cansada, chegando a ser quase cego, mas o homem soube que a sua frente estava o jovem filho, ergueu-se e apalpou o rosto do rapaz, e sorriu em prantos
-Samuel... – Ele cambaleou soltando a bengala, mas o filho segurou-o o abraçando. Os dois não puderam conter a emoção e sem muitas palavras sorrirem, olharam-se e abraçaram-se
-E a mãe? – Ele esperava encontrar alguém na janela ou perto da porta
-Tua mãe Samuel... – Ele enxugou o rosto do filho com os polegares – Não aguentou esperar... Mas teu irmão... Vem logo atrás não é?  Você conseguiu resgatar o Sandro não é? Você... Você o tirou das mãos dos inimigos não é? – O pai disse sorridente, mas sem responder Samuel apenas entregou-lhe o quepe do irmão caçula e sacou do bolso um papel dobrado diversas vezes e o desdobrando leu:
“Se estiver lendo, quer dizer que eu morri aqui, sem ao menos poder despedir-me de todos vocês... Mas saibam que eu morrerei feliz, pois sei que fui amado, e que todos os momentos bons que pude viver trago comigo em meu peito, e lembro-me que os melhores momentos foram sempre ao lado de vocês, Rosa, minha querida esposa e meus filhos Fernando e Augusto, com meu irmão Samuel e os meus amados pais, José e Maria... Amei-os, mas minha hora chegou, morri por minha pátria e espero que ao menos um sorriso possa ter trazido... A vitória de nosso país“
                Samuel analisou toda a paisagem ao seu redor, e chorou novamente, haviam perdido a guerra, haviam perdido tudo, as crianças, as flores, a esperança. O pai desolado o abraçou forte, ambos choraram, as lembranças voltaram a cabeça de Samuel, ele e o irmão caçula brincando naquela vila, as árvores, as pessoas ricas de sorrisos, a fartura, a beleza dos rios, das plantas e animais... Tudo perdido na guerra, todas as lembranças queimadas, destruídas; depois observou as famílias pobres; doentes; a escassez, notou que não só perdeu a guerra, perdeu seu jardim e todo o resto com ele... Perdeu sua vida, tirou vidas, e a de seu próprio irmão.

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