sábado, 12 de maio de 2012

O mico de circo e a borboleta intrépida

Capitulo UM - Crisálida


-Dado, seu imprestável! - A mulher de feições horrendas, saltou do carroção e secou suas mãos velhas no avental imundo; Dado segurou-se para não rir, imaginando um grande terremoto acontecer a cada passo da megera e fingiu não escutar a mulher gritando - Traga todas as panelas para dentro do carroção antes que escureça! Temos mais uma apresentação essa noite... – Ele permaneceu a fingir que não escutava enquanto a mulher aproximou-se enraivecida e chutou os carrinhos com os quais o pequeno Dado brincava, mas ele permaneceu impassível, pegou os brinquedos que ainda lhe restavam e tornou a brincar como se nada houvesse acontecido – Não finja que não me escuta seu mico preguiçoso! – As pulseiras em seus pulsos faziam barulhos frenéticos enquanto a moça roliça se movimentava, ela mostrou seus dentes podres e os rangendo puxou a orelha de Dado e aproximou-a de seus lábios secos – Eu mandei que trouxesse todas as panelas para o carroção... – Ao dizer isso, a mulher chutou-o e o pobre mico caiu sobre as cinzas da última fogueira fazendo com que as panelas recém-limpas, por ele, e empilhadas fossem ao chão num grande e estridente estrondo, o macaco resolveu assentir e carregou com cuidado as panelas pesadas e metálicas da dona, e pôs uma a uma entre as malas de fantasias e apetrechos, sentou-se num canto e suspirou enquanto ouvia os cavalos chicoteados começarem a galopar, analisou pela última vez a paisagem e derramou sua lágrima ao ver o céu vermelho do entardecer trazer ao seu rosto o vento gélido da saudade... Assim cochilou antes que chegassem à próxima cidade.

...

-Acorde seu vagabundo! – Dado sentiu seu pelo molhado e o frio da noite fez com que ele, assustado, acordasse, passou a tremer sentado na beirada do carroção com o mestre de cerimônias baixinho e de um bigode inconfundível o olhando fixamente enquanto arrumava o suspensório – O show irá começar em pouco tempo e você nem ao menos está pronto seu macaco vadio! Nós te tiramos daquela sua realidade ignóbil! Sua casa terrivelmente miserável... E você nos agradece assim? atrasando nossas apresentações? Ande! Pare de cochilar por aí! – Com seu andar desengonçado o pequeno mico correu para seu camarim improvisado e vestiu suas roupas de palhaço, olhou-se no espelho e forjou um sorriso lembrando-se das risadas do público, mas abaixou a cabeça, abatido, e saltou de sua banqueta, entrando na fila de atrações... Esmeralda era uma mulher desprezível, vaidosa, e glutona... Uma baleia, como a chamavam, e de seu rosto balofo pendia uma barba cacheada e grotesca de fios castanhos escuros, logo atrás da madame, se assim poderia ser chamada, estava um ogro, quero dizer... Um homem, alto e extremamente musculoso, com tatuagens em qualquer lugar que você possa imaginar, treinava um dos braços erguendo um enorme peso, enquanto alisava seu bigode encaracolado com o dedo indicador... Chamavam-lhe de O Bárbaro, mas o rapaz era um narcisista, tinha coleções de perfumes e cremes para a pele, suas roupas deveriam estar sempre combinando em tons e tecidos... Havia ali também um rapaz esguio, com a cara abatida, daqueles que ninguém dá nada por ele, mas que quando os holofotes acendiam mostrava seu talento engolindo espadas e chamas... O mestre de cerimônias tomou seu posto na frente do público e passou a apresentar as atrações, enquanto sua esposa, a megera que Dado odiava, acalmava os tigres e chicoteava os ursos e elefantes;
Dois palhaços parecendo voltar de um bar, se aproximaram de Dado, era um roliço e o outro magrelo de braços finos e pernas longas e peludas, os dois nem sorriso forjavam, mas agradavam as plateias por onde passavam; logo o mestre de cerimônias chamou os três, que desengonçados batiam-se e caiam, mas sem ensaio ou coisa parecida, aquele era realmente a maneira que os três andavam juntos, apresentaram-se sem uma palavra enquanto o público aplaudia, fizeram malabarismos e arrancaram risadas do público enquanto o mico sorria forçado e cambaleava entre as apresentações, saltando e brincando entre os amigos palhaços, subindo sobre grandes bolas coloridas e equilibrando-se, mas logo ele saiu de cena e enquanto o público estava entretido com os outros dois palhaços; Dado foi para de trás da arquibancada, como a dona lhe ensinara, ela lhe disse que aquela cidade era uma das mais ricas que haviam visitado, porém uma das mais pão-duras; deveria tomar cuidado, mas não poderia perder uma única chance... E assim o fez, com seus dedos leves e habilidosos o pequeno macaco puxava as carteiras que pendiam dos bolsos das mulheres e homens rechonchudos, depois passou a tirar jóias com cautela dos mais desligados, pegava moedas, preciosidades, mas ali viu algo que lhe agradou, um pirata viajante trazia amarrada a cintura uma saca consideravelmente grande de moedas de ouro, passou cautelosamente a mão pelo nó e tentou desatá-lo com cautela, mas ouviu um barulho que não era muito bom para se ouvir, a barriga do velho pirata roncava "Pelo jeito meu senhor está com fome" o vendedor de aperitivos disse "vamos é só uma moedinha, para saciar a fera em seu estômago" o macaco assustado tentou puxar a saca o mais rápido que pode, mas o pirata tão rápido quanto, tentou arrancar uma moeda, mas no lugar do que esperava sentiu em seu punho uma mão gelada e enrugada, e Dado só pode ver os olhos raivosos do pirata em sua direção, analisou a figura do macaco e gritou enquanto pulava para de baixo da arquibancada.
-Ladrão! Ladrão! – As pessoas ao ouvir o homem bradar, sem pestanejar apalparam os bolsos, as mulheres procuravam as jóias nos pulsos e gritavam ao não encontrá-las, Dado viu-se sem saída quando notou toda a plateia levantar-se e vir em sua direção, a sua única opção era correr e embrenhar-se na floresta.
                                                               
...

“-Mamãe? - Ele disse assustado ao acordar sobre uma cama improvisada feita de folhas.
-Se acalme filho, a mamãe está aqui... Venha, tome seu leite, querido.
Dado ergueu-se da cama tonto e cansado e sentou-se próximo a sua mãe, ela serviu-lhe leite e deu-lhe frutas picadas em uma tigela feita com a metade de um coco. Dado não tocou em seu alimento e cabisbaixo dirigiu-se a mãe.
-E o papai? Quando vai voltar
-Logo filho... – A mãe disse sorridente, mas inclinou-se e segurou o choro guardado há tempos – Logo...
            A porta abriu-se com violência, e levaram o pequeno macaco da casa de sua mãe, a mulher sem reação gritava e chorava, acordando os moradores que ainda restavam na floresta, mas nada puderam fazer, além de olhar e chorar... O pequeno Dado teria o mesmo destino que seu pai... E a pobre Muriel sozinha estaria até sua morte... Dado foi enjaulado, como uma fera, um monstro... Bateu nas grades, saltou, gritou, fez todo o esforço possível, mas nada adiantava, apenas parou e sentou-se no canto de sua pequena jaula, olhando sua vila se tornar longínqua e o olhar de sua mãe sumir no horizonte; a chuva passou a castigar a carroça, os galhos passaram a cair e Dado encolhido viu sobre o chão de madeira suas lágrimas serem misturadas com a chuva.”

-Acorde! – O macaco assustou-se e balançando a árvore, sentiu uma gota de orvalho cair em seu focinho e despertou a procura da voz estridente – Aqui em cima seu panaca! – O macaco acostumado aos xingamentos ergueu o cenho e analisou acima de sua cabeça um objeto estranho e lindo ao mesmo tempo pendendo de um pequeno galho de árvore – Isso mesmo! – Dado assustou-se com o grito e saltou para trás, observando a pequena coisinha metálica e colorida a sua frente e ergueu seu braço em direção a mesma – Não faça isso! – Ele encolheu o braço assustado – Você não pode tocar...
-Então para que me chamastes...? Coisinha... – Ele procurou um nome para o que via
-Meu nome não é coisinha...
-Então quem tu és?
-"Uma borboleta Amarela? Ou uma folha seca, que se desprendeu e não quis pousar?" Mário Quintana...
-Já vi diversas borboletas, e tu uma não és...
-Por isso quero que me vejas, mas não me toques... – A pequena coisa mexeu-se, cambaleou, bailou e tremeu, até que rasgou-se, assustando o macaco que quis ajudar – Não! Não toque! – Ela voltou a tremer e bailar e aos poucos a coisinha abriu-se e de lá saiu outra coisinha, apertada, amassada, chacoalhou-se como um cãozinho molhado e bateu suas pequenas asinhas pela primeira vez, Dado olhou deslumbrado as asas grandes e amarelas da pequena borboleta reluzindo ao sol – E então... Como estou?
-Agora vejo que realmente és uma borboleta, obrigado por maravilhar meu dia, mas agora vou-me, tenho que fazer algo de minha vida antes que o sol se ponha – O macaco disse virando-se
-Espere! – Ela deu seu primeiro e curto voo e caiu nas mãos enrugadas do jovem mico – Espere... – continuou ofegante – Agora que viu meu renascimento, pertenço a ti, e somente a ti...
-Não... Não posso ser dono de ninguém... Seja livre
-Mas serei livre, só pertencerei a teu coração... Deves me levar a onde for e quando tiver um grande amor, deve-me dar a sua amada e dizer que sente-se com borboletas em seu estômago... – Disse apaixonada
-Meu coração está fechado para amores... E para você... Desculpe
-Mas o que aflige tanto um coração tão sincero quanto a o de um jovem macaco bondoso?
-A vida, pequena borboleta... A vida nos deixa calejados...
-Mas nós somos quem escolhemos como queremos ficar... Sozinhos para sempre, ou felizes com nossos amigos, amores e família... Eu dou a ti a chave de meu coração, dê-me a mim a sua?
-Não sou bom o bastante para cuidar de algo tão frágil, tudo que passa em minhas mãos, murcha, quebra... Morre... – Ele deixou a borboleta no chão e voltou a andar, mas ela persistente voou novamente desengonçada e posou no focinho do macaco.
-Pare de andar! Ainda não sou bem treinada de voo...
-Deixe-me ir...
-Espere... Posso lhe ajudar a alcançar seus sonhos a encontrar quem amas, a voltar para quem tem saudades... – Dado parou repentinamente e inclinou a cabeça, respirou fundo e prosseguiu, a borboleta pousou no chão cabisbaixa.
-Anda... –Ele virou-se sorridente em direção a borboleta com os braços erguidos - Como fazemos para chegar do outro lado? - Ao ouvir isso a pequenina sorriu e voou com toda a energia em direção ao novo amigo
-Oh! Obrigado meu amigo! Prometo estar contigo em todas as suas aventuras! Até a minha morte! – E assim seguiram em direção a Alvorada...


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